Tantos Ritos

Se queres ser universal, fala da tua aldeia - Leon Tolstói

A fotografia registra situações significativas, estilos de vida, gestos, rituais e papéis sociais, estimulando a sensibilidade humana para abrir as lentes da câmera de forma a apreender a essência da linguagem não-verbal. O que está em jogo é a análise de imagens e discursos visuais, produzidos no âmbito de diferentes culturas, como possibilidades para dialogar com as regras e os códigos culturais.

Trabalhos que lidam com a imagem nessa perspectiva lidam também com o cruzamento de olhares: o do fotógrafo, o do sujeito da imagem e o do espectador. É nesse encontro de intencionalidades que se estabelece a comunicação por meio de signos e estes se transformam culturalmente em significações.

O objetivo deste ensaio fotográfico é retratar as diversas práticas e cultos religiosos, de forma a mostrar cerimônias, características rituais e fragmentos simbólicos de diferentes crenças encontradas na cidade de Pindamonhangaba, São Paulo. Pelo caráter documental do trabalho, o critério de escolha dos temas abordados se deu não por base em classificações pré-concebidas – cristãs, afro-brasileiras, orientais, dentre outras – mas sim pela delimitação geográfica.

Dado o curto prazo de produção e a grande quantidade de ritos, não seria satisfatório o resultado do trabalho se todos fossem inclusos. Por isso, foram selecionadas algumas manifestações religiosas onde a presença do caráter ritualístico é mais evidente. Totalizam, desta forma, seis crenças: Candomblé, Movimento Hare Krishna, Umbanda, Santo Daime, Bruxaria e o Xamanismo, que entra no trabalho como uma surpresa pessoal por ter se tratado de um rito religioso de uma tribo do Acre que visitou a cidade.

Embora seja a cultura e não a natureza que produz a diferença entre os povos, essas práticas rituais são freqüentemente observadas como forma de aproximação de um mundo “primitivo” em oposição ao mundo “civilizado” imposto pelo processo das Grandes Navegações. O contato do indígena brasileiro com o europeu, com os escravos africanos e outros imigrantes promoveu não somente uma miscigenação de cor de pele, mas também cultural. A inerente necessidade de busca por uma identidade nacional – e pessoal – quebrou limites materiais, espaciais e temporais.

Então vale, para este ensaio fotográfico, a observação destas imagens sem o julgamento do olhar individual diante do desconhecido. No trabalho há uma breve contextualização de cada doutrina no início dos capítulos e nota-se a ausência de legendas, pois a realidade contida na fotografia pertence à estrutura cultural do outro, a qual vem carregada de significados não-verbais.

Há ainda a consideração segundo a qual essas imagens captadas são, por si próprias, objetos de reflexão e análise. Neste caso, a imagem não é vista como dado empírico-objetivo, mas como ponto de partida para uma reflexão de si a partir do contato com o outro, pois as diferenças são notadas somente com a aproximação do sujeito-observador.

 


MHK

 


Bruxaria

 


Candomblé

 


Santo Daime

 


Xamanismo

 


Umbanda